Cuidados com a Família
Todo mundo fala do paciente com Transtornos Alimentares. Mas e a família? Os pais que assistem ao sofrimento daquele filho e muitas vezes nem desconfiam da existência da doença, ou os irmãos que sofrem juntos. Cada integrante tem um papel definido nesse verdadeiro drama familiar. Sim: a família, de certa forma, também é paciente. Também é merecedora de atenção especial. E, esse trabalho específico, a abordagem familiar no transtorno alimentar, é uma das principais ferramentas para o tratamento do paciente.
Um foco importante: a adolescência.
Como existe maior incidência dos Transtornos Alimentares na adolescência, o molde familiar e esse perfil de paciente precisam ser revistos e, muitas vezes, com o auxílio de um profissional.
A adolescência é, em si, um período conturbado, de transformações físicas e mentais que ocorrem com uma rapidez intensa. Não só as espinhas brotam no rosto, os órgãos sexuais se desenvolvem, os hormônios estão em alta, como também o adolescente se depara com a administração do desejo, das frustrações, das conseqüências do convívio social.
Este é um momento muito particular em que se faz o 'luto da infância': pelo corpo infantil, às brincadeiras, à figura dos pais que amparavam e correspondiam, ou não, às necessidades da criança. O novo corpo e a nova identidade que se impõem, sem pedir licença, solicitam atenção dos adultos e do próprio adolescente. Essa tarefa muitas vezes é vista como excessivamente desafiadora. Parece que os limites se perdem e isso tem sido mais desconcertante num mundo em transformação como nunca visto antes.
Sair da concha
Além das questões mais diretamente ligadas à família, o período da adolescência solicita do jovem a saída mais efetiva do grupo familiar.
É o momento em que o adolescente procura os seus grupos, nos quais os adultos não entram. Existem vários guetos que se formam e acolhem um número crescente de pessoas que se identificam com os estereótipos e/ou seus ideais. Dos roqueiros aos pagodeiros, dos cheios de piercing aos tatuados, dos primeiros intelectuais aos rebeldes, e assim vai.
Nessa busca da autonomia e da identidade pelo adolescente a própria família é questionada em seus valores. Os pais são pegos nas contradições, normas impostas e estéreis, em que os adolescentes são tão hábeis em captar e denunciar. "Se você pode sair até tarde, por que eu tenho de chegar na hora?". É um momento de desafio que permite a família se reorganizar em suas novas bases.
Um ponto que alguns profissionais da área de saúde consideram importante: o adolescente que nunca questiona seus pais terá mais dificuldades de se tornar adulto. E, por outro lado, uma atitude aparentemente desafiadora pode remetê-lo a um caminho contrário ao da maior autonomia. O adolescente pode adotar uma forma camuflada de permanecer mais dependente dos pais.
A família pode ajudar muito
No caso do Transtorno Alimentar, particularmente no da Anorexia Nervosa, o trabalho com a família é considerado o ponto central. As pesquisas têm demonstrado resultados muito melhores quando os adolescentes portadores de AN são tratados pela terapia familiar do que individualmente. E se considerarmos a gravidade de alguns casos, temos observado o quanto o trabalho com a participação da família é fundamental, principalmente no momento inicial do tratamento. Por não ter conhecimento técnico, a família não sabe avaliar bem se o problema que está enfrentando é uma questão que realmente demanda tratamento psicológico. Muitas vezes, para algumas delas, é mais fácil chegar ao tratamento pelo caminho das condutas objetivas: os medicamentos, as prescrições, ou mesmo o das dietas assistidas. É verdade, o transtorno alimentar pode ser um ponto cego de uma série de hábitos incorporados à estrutura e rotina familiares.
Um movimento positivo
O convite numa terapia de família é o de encorajar os membros a tornarem-se observadores de si mesmos. Cada integrante desse grupo passa a atuar como "terapeuta" dos seus próprios hábitos e modos de se relacionar. E mais do que deixar simplesmente a cargo do profissional as soluções vindas de fora, a família é estimulada a encontrar as soluções que funcionam para ela. A figura do terapeuta atua como um suporte para que essas pessoas possam exercer um olhar menos crítico e mais adequado para lidar com o problema. Isso sem desconsiderar os conflitos, é claro.
O objetivo da terapia de família não pára na construção de um modelo mais saudável dentro de casa. O foco continua em aumentar a autonomia do adolescente, criar limites mais claros e apropriados, além de auxiliar os pais na tarefa de reverem seus papéis, na medida em que o adolescente ganha mais independência.
Realmente o tratamento dos transtornos alimentares é complexo e necessita de uma adequada avaliação de cada caso. Mas a participação da família permite que o tratamento possa ser levado de uma forma muito mais clara. E, a partir do princípio de que a solução está sendo buscada por todos, esse movimento conjunto tende a aliviar a culpa de cada um dos participantes. E assim o tratamento pode fluir melhor, com a participação de profissionais, criando uma aliança terapêutica que permite um trabalho cada vez mais consistente.