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Comi tudo! TCAP

Um pacote de bolacha, 1 litro de refrigerante, 1 pote de sorvete, 1 barra de chocolate (de cobertura), uma lata de doce de leite. Não, isso não é uma receita de sobremesa ou lista de supermercado. É o momento de crise de um paciente com TCAP – Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica. E não pára nos doces! A compulsão toma conta da pessoa com pães de queijo, baldes de pipoca na frente da TV, sacos de batata frita, bala e, por que não, produtos diet!

Do termo em inglês Binge Eating (farra de comilança, indulgência excessiva), o TCAP é uma sucessão de episódios de compulsão alimentar, repetidos com certa freqüência. A compulsão, por sua vez, é o termo utilizado para quem se sente coagido internamente a realizar algo. E se não o faz, tem de conviver com uma terrível angústia. Como se aquele ato fosse urgente.

Você consegue identificar o TCAP por alguns critérios:

  • Comer uma quantidade muito acima do que a maioria das pessoas consumiria num espaço de tempo relativamente curto. Ex.: 2 horas.
  • Ter a sensação de falta de controle durante o episódio de compulsão. Ex.: não conseguir parar ou controlar o que está comendo.
  • Comer bem mais rápido do que o normal.
  • Comer grandes quantidades sem estar com fome.
  • Comer sozinho por se sentir constrangido pela enorme quantidade.
  • Sentir repulsa por si mesmo, depressão ou culpa depois de comer excessivamente.
Paralelos muito próximos

O que difere o TCAP da Bulimia são os métodos purgativos utilizados (vômitos, laxantes etc.) que vêm com a culpa depois de uma compulsão alimentar. Justamente por esse motivo, os pacientes com TCAP têm maior índice de massa corpórea, por apresentarem sobrepeso ou serem obesos. É mais difícil, para essas pessoas, perderem peso do que obesos sem compulsão.

Um olhar cuidadoso

Sem orientação adequada, são pacientes que buscam erroneamente o tratamento dirigido à obesidade, e não ao TCAP, em que os aspectos psicológicos e psiquiátricos específicos são considerados. Para seu quadro, existem medidas certas que garantem os melhores resultados.

Assim como os outros transtornos alimentares, muitos aspectos precisam ser avaliados com atenção: psicológicos, familiares, psicobiológicos e genéticos. Não podemos deixar de considerar que nas últimas décadas, os aspectos socioculturais têm favorecido o aumento dos transtornos alimentares e obesidade. As pessoas mudam seus hábitos alimentares, padrões de peso e, por conseqüência, o formato de seus corpos tão valorizados socialmente.

Chegando no ponto

TCAP não é uma exclusividade de obesos, nem a obesidade é o que determina um diagnóstico de TCAP. A obesidade e todos os seus fatores de risco associados é, sim, conseqüência do comer compulsivo.

Uma questão que envolve pessoas extremamente preocupadas com o seu modo caótico de alimentação. Esta, inclusive, muitas vezes é a principal queixa ao médico. Bem mais do que o próprio excesso de peso.

Um forte aliado

Um recurso que ajuda muito o acompanhamento e a avaliação é o diário alimentar feito pelo próprio paciente, com anotações tanto de consumo alimentar como aspectos emocionais ou ambientais que possam ter influenciado determinadas atitudes.

É quando percebemos concretamente um comportamento que acaba se tornando quase que automático. Veja bem: a compulsão alimentar não é uma simples gulodice, ou quebra de regime, por exemplo, um chocolate. Estamos falando de um consumo desenfreado em torno de 1.000 calorias por episódio. Há relatos de até 5.000 calorias!

O que os médicos observam é que quanto maior a massa corporal, maior será o consumo calórico por ocorrência. Ou seja, muito mais grave.

Um pouco de psicologia para entender esta dinâmica

Desde o nascimento, nosso corpo envia mensagens à mente. Dor, desconforto e necessidades são manifestadas por um bebê e interpretadas, inicialmente, pela mãe e, depois por nós mesmos. Algumas teorias apontam uma hipótese bastante fundamentada sobre problemas nesta mediação, que tornam confusa a troca de informações entre a psique e o corpo.

Quer um exemplo? Uma mãe que entende como fome todas as vezes que seu bebê chora. No subconsciente dessa criança, situações de desconforto acabam associadas à comida. Mas esse é apenas um exemplo.

Os estudos mostram que pacientes com TCAP têm mais tendência a responder com ingestão de alimentos às situações de tensão e sentimentos difíceis. Relatos dessas pessoas associam momentos de solidão, tédio, raiva, ansiedade e estresse ao dispositivo da compulsão.

Estamos falando de pessoas com auto-estima muito baixa, auto-imagem negativa, excessiva autocrítica e tendência a comportamentos impulsivos. Tendem a sentir mais raiva e estresse do que outros.

Cirurgia resolve?

Muito se fala sobre a cirurgia de redução de estômago (Gastroplastia) e cirurgias de redução da obesidade (Bariátrica). Hoje em dia, é comum você olhar à sua volta e constatar pelo menos um caso de alguém conhecido que fez esse procedimento. Grande parte das pessoas com TCAP apresenta grave obesidade e acaba recebendo a indicação desse tipo de cirurgia. Mas é preciso considerar alguns pontos muito importantes.

  • O diagnóstico de TCAP não impede a realização dessas técnicas.
  • O TCAP pode dificultar a adaptação pós-cirúrgica pelos mesmos motivos que comprometem tratamentos tradicionais da obesidade.
  • A cirurgia é uma técnica mecânica no corpo, não na mente e nos fatores psicológicos, sociais, culturais etc. que originam o TCAP. Isso é: a cirurgia não contém o comer compulsivo.
  • Alguns chegaram a contar que depois da cirurgia substituíram a compulsão alimentar, pela compulsão por compras, jogo, consumo de substâncias psicoativas ou álcool.
  • A cirurgia estabelece um limite físico ao organismo, mas não impede a freqüente ingestão de alimentos calóricos. Ex.: leite condensado em pequenas e repetidas porções.
Uma luta possível

Como você viu, o TCAP envolve uma série de questões assim como todos os Transtornos Alimentares. E um olhar múltiplo consegue ótimos resultados na luta para o controle dessa doença. Estudos mostram que através da psicoterapia os pacientes apresentam uma redução percentualmente alta na freqüência dos episódios de compulsão alimentar no curto prazo. E recursos farmacológicos, cada vez mais eficientes, também têm sido utilizados como auxílio no tratamento. Esse tratamento completo, ou seja, a associação de terapia com medicação e orientação alimentar, consegue melhorar os aspectos emocionais. Com esse controle é possível quebrar o ciclo das compulsões e, aí sim, conseguir a efetiva perda de peso. Vale a pena - e muito - procurar auxílio profissional capacitado. Converse com quem entende exatamente o que você sente, pois somente ele pode ajudar você.

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Redação Técnica: Equipe Gostar-se | Redação Final: Tânia K. Hübner