Vomitei de novo... É Bulimia, não é?
Comer, comer, incansavelmente comer. Não para suprir necessidades alimentares e sim para suprir outros tipos de fome: afetiva, biológica, sociocultural, familiar e individual. E depois? Vomitar, provocar diarréia, malhar, expurgar, fazer de tudo para se livrar de toda aquela comida. Estamos falando principalmente de mulheres (90%), elas iniciam o quadro na faixa de 18 a 23 anos. Mais rara em homens, quando ocorre neste sexo o quadro geralmente inicia entre os 20 e 25 anos. Acredite: pessoas que se não receberem tratamento podem manter-se com Bulimia até os 50 anos.
A ânsia por comida, própria da Bulimia Nervosa, leva seus pacientes a ingerir volumes assustadores de 2 a 5 mil calorias por episódio e de 1 a 7 ocorrências por dia. Depois do empanturramento, entram num processo de culpa vergonha e depressão capaz de provocar uma purgação através de vômitos, laxantes e outros métodos. É preciso se livrar daquele peso imediatamente!
Assim que conseguem expelir o conteúdo, os bulímicos se sentem humilhados, fracassados, com idéias de auto-recriminação e ficam ansiosos em relação a situações sociais. Especialmente após o empanturramento, por isso isolam-se.
As compulsões ocorrem geralmente no fim da tarde ou início da noite, quando os pacientes saem, muitas vezes disfarçados, em busca de comida. Chegam a premeditar a compra e criar estratégias para o consumo, sem que as pessoas percebam.
Descontrole. A chave de tudo
A relação com a comida é semelhante à que se estabelece com uma droga aditiva, um vício, um desejo compulsivo, desenfreado, mas também repulsivo. Da mesma forma como a Anorexia, o que desencadeia a Bulimia geralmente é um acontecimento que gera medo ou confusão, fazendo a pessoa sentir-se fora de controle.
Este comer-vomitar-comer-vomitar associado à prática obsessiva de exercícios é um ciclo vicioso que as pessoas se auto-impõem. Funciona com a mesma dinâmica que algumas práticas religiosas: pecar, pagar a penitência com orações e punições, sentir-se apto a pecar novamente. Com o tempo, a ingestão dos alimentos fica comprometida, a purgação passa a ser um atrativo para os bulímicos que querem comer sem o terror de ganhar peso.
Um comportamento que altera a neuroquímica e o psiquismo da pessoa, causando o impulso que, depois de detonado, torna-se incontrolável, da mesma forma que o alcoolismo. Como conseqüência social, a vergonha faz com que o paciente se isole e repudie especialmente as pessoas que lhe são mais especiais.
Impulsividade. O que está por trás de muitas atitudes
A impulsividade é uma falha em resistir a um impulso ou a uma tentação para realizar um ato que é danoso a si mesmo ou a outros. Por essa definição, percebe-se porque se evidencia um aumento do uso de álcool e outras substâncias em pacientes bulímicos.
Outra característica de impulsividade é ter um curso rápido, não desejável e sujeito a erro, em pessoas com predisposição para agir de forma irrefletida. Essa consideração nos remete a bulímicos graves com outros comportamentos de descontrole: auto-mutilação, pensamentos suicidas, desejo sexual incontrolável ou gastos desmedidos.
A Bulimia Nervosa dá sinais
Apesar de conseguirem ocultar os sintomas por muito tempo, é possível perceber claramente alguns sinais e doenças associadas que apontam para a Bulimia Nervosa:
Auto-recriminação
É impressionante o que eu faço comigo. Sinto-me uma estúpida depois de ter comido tudo o que tinha na geladeira. Sinto-me um lixo por não conseguir me controlar.
(A.S.V. 17 anos)
Ansiedade
Tem dias em que eu já acordo aflita, sem saber o que está acontecendo comigo. Quando vejo, já estou comendo um monte e depois vou para o banheiro.
(B.L. 19 anos)
Dificuldade de tolerar tensão interna
Eu não quero ser agressiva com a minha mãe. Só não consigo agüentar as queixas dela a meu respeito! Ela começa, e eu saio xingando!
(P.H. 15 anos)
Impulsividade
Nunca usei drogas. Mas acho que a fissura que tenho por comida é meio parecida com a de quem usa drogas. Não dá pra resistir.
(M.C.S. 20 anos)
Auto-estima baixa
Hoje eu tenho uma festa para ir, mas não me sinto bem com nenhuma roupa. Estou horrorosa.
(V.F. 15 anos)
Diarréia, desidratação ou constipação intestinal (excesso de laxantes ou diuréticos)
Ontem, depois do jantar tomei uns comprimidos de laxante e fiquei mal, passei a noite toda no banheiro.
(S.L. 19 anos)
Dores de estômago e sensação de refluxo (decorrentes de vômitos)
Antes, eu vomitava e não sentia nada, mas agora eu fico com muita dor de estômago, e às vezes, parece que o que eu comi volta para a garganta.
(F. D. 18 anos)
Aumento das glândulas parótidas (região do pescoço)
Estou ficando com a cara redonda, parecendo lua cheia. O que será isto?
(M.H. 22 anos)
Irregularidade na menstruação
Meu ciclo ficou meio maluco. Têm épocas em que menstruo normalmente, em outras, fico até dois meses sem menstruar.
(C.C.S. 17 anos)
Sudorese, taquicardia, sonolência
Meu problema vem ocorrendo há uns 2 anos, mas de uns 3 meses para cá sinto-me muito mal, às vezes tenho crises de palpitação, suo muito e tenho muito sono durante o dia.
(V.L. 25 anos)
Alteração no esmalte dentário pela acidez dos vômitos
Quem me mandou procurar a senhora foi o meu dentista. Eu estava cheia de cáries e com os dentes gastos, e ele me disse que é porque eu vomito muito e isso é uma doença.
(M.L.C. 20 anos)
Infelizmente o fracasso e a vergonha fazem com que a busca por ajuda muitas vezes demore. As vezes só acontece depois que já foi instalado o quadro. E o tratamento somente é conduzido após o encaminhamento profissional a especialistas.
Quem procura ajuda tem ótimas perspectivas
Os estudos médicos, psicológicos e nutricionais apontam um excelente prognóstico para os pacientes tratados. Pesquisas de curto e médio prazos (6 meses a 5 anos) apontam uma taxa de recuperação de 31% entre 6 a 12 meses, 50% depois de 2 a 4 anos e até 77,4% por volta dos 5 anos. Porém devemos considerar que cada caso tem suas particularidades específicas e a possibilidade de doenças associadas (depressão, abuso de substâncias químicas etc.). Dados estatísticos servem para orientar os profissionais envolvidos, dar uma visão para os interessados no assunto. Mas cada paciente não é um número, é uma pessoa.