Anorê... o quê?
Com idéia fixa em perder de peso, algumas pessoas se impõem uma restrição alimentar que se agrava pelo medo doentio de engordar. Assim se inicia o drama de pacientes com Anorexia, na sua maioria mulheres, e suas famílias. Todos, cada vez mais ávidos por tratamento, compreensão e esperança.
Sim, a Anorexia Nervosa (AN) é uma doença que leva seus pacientes a um grau de destruição tamanho, capaz até de causar a morte (5 a 25%) por uma grave desnutrição. E quando não mata, essa desnutrição agrava a distorção da imagem corporal, aumentando o desejo de emagrecer e dando origem a vários comportamentos próprios da Anorexia.
Hoje sabe-se que os fatores desencadeantes são: culturais (padrões de beleza), reforço social, influência dos pais, amigos, família e da própria mídia, que invade nossa casa com propaganda, revistas, outdoors. Enfim, tudo é feito em nome do culto ao corpo perfeito, associado à ilusão de que é através dele que será alcançada a felicidade.
Quem corre mais risco?
A Anorexia Nervosa é mais freqüente, principalmente, em mulheres jovens dos 15 aos 19 anos. Nesta fase transitória entre a adolescência e a vida adulta, é que a pessoa define seus valores culturais a partir da influência do grupo e irreverência frente a família. É o momento em que se começa a beber, fumar, usar drogas e dar valor, muitas vezes ao extremo, à aparência física. O grupo funciona como um modelo a ser seguido.
Já há muitos anos, a estética valorizada e exigida socialmente é a do corpo magro. Esse padrão é o responsável pelo desejo de pesar menos e pelo crescente número de pessoas buscando formas cada vez mais agressivas para atingir metas impostas de peso. A imagem do corpo ideal está associada ao sucesso, autocontrole, autodisciplina, liberação sexual, classe e competência.
Profissões como Bailarinos, Ginastas, Atletas, Nutricionistas, Atrizes, Modelos ou outras que sugerem uma estética do corpo magro estão mais inclinadas à Anorexia. Estas pessoas são mais suscetíveis às mensagens da mídia.
Sintomas que você pode ver
Quem está ao lado, muitas vezes conta esta história: "...a menina que sempre foi afável, passou a ser mal-humorada, instável, isolada, obsessiva pelos estudos, triste".
A insônia, inicialmente, é um simples acordar antes da hora. Mas se agrava até manter o paciente noites inteiras em claro. Rápidas mudanças de ânimo são conseqüência do severo regime auto-imposto. Sentem muito frio, apresentam perda de cabelo e pele ressecada. Muitas vezes aparece uma penugem em algumas regiões do corpo e, no caso de mulheres, há uma parada da menstruação.
Esses são alguns dos sintomas que acontecem por conseqüência da desnutrição. Em muitos casos, a desnutrição é tamanha que a primeira providência é o restabelecimento da condição nutricional e, somente depois, é possível fazer uma avaliação psicológica.
Você já se viu assim ou viu alguém com esses comportamentos?
Perfeccionismo
Sou muito exigente comigo. Quero de mim um rendimento muito maior do que dizem ser necessário. Avalio sempre o que faço e como faço. É... sou crítica! Não posso errar: isso é o fracasso. (M.L.H.)
Este é um comportamento auto-imposto, que muitas vezes permanece mesmo depois da recuperação do peso. Condição a ser tratada em psicoterapia.
Pensamentos fixos vinculados ao comer
Sempre acreditei que acordada teria mais facilidade para queimar calorias. Passei a lutar contra o sono e permanecer noites inteiras desperta para lutar contra meu peso. Também pensava que beber muita água tinha um efeito depurativo. Isso me levou a beber de 5 a 6 litros de água por dia o que me mantinha acordada. Uma amiga tostava tudo o que comia, até bolachas, para reduzir calorias. (S.N.)
As pessoas praticam teorias pessoais e sem fundamento e adotam comportamentos obsessivos.
Vergonha de comer perto de outras pessoas
Nunca gostei que me vissem comer minhas quantidades enormes de comida. Parece que todos sabem que tenho Anorexia. (D.J.H.)
Mesmo quando recuperadas, as pacientes podem querer se manter reservadas por pensarem que comem uma variedade acima do comum.
Sentimento de ineficácia e baixa auto-estima
Dizem que sou mais bonita que minha irmã. Mas eu acho que só dizem isso para me agradar. (L.R.)
Tendência e necessidade de controlar seu entorno
Especializei-me nas cenas de choro mais convincentes para controlar as saídas de minha mãe e tentar impor a minha vontade... (W.L.S.)
Os programas da família ficam sujeitos às necessidades de estudar ou aos humores do paciente.
Restrição àiniciativa e à expressão emocional
Não consigo dizer que amo meus pais; é mais fácil mostrar indiferença e frieza. Também não tolero despedidas. Parece que as pessoas vão perceber que eu gosto delas. (E.S.C.)
Demonstrar afeto pode parecer mostrar-se frágil, sem autocontrole.
Espontaneidade limitada nas relações sociais
Meu receio de não agradar é tanto que sou capaz de suportar situações absurdas. Certa vez, fui ao cinema assistir a um filme de terror, que eu detesto, só para não contrariar minhas amigas. Quando perguntaram a minha opinião, só consegui falar depois que todas haviam se expressado e, sinceramente, não me lembro do nome do filme! (V.M.)
A pessoa chega a suportar uma situação repulsiva, por medo da desaprovação do grupo em que está inserida.
É assim mesmo!
Mais do que não querer engordar, o medo de um anoréxico de ganhar peso é tão assustador e crescente que torna-se uma fobia incontrolável. Muda seus hábitos, gera diversos comportamentos, altera a percepção de si mesmo, suas relações sociais e familiares, além de provocar graves consequências ao organismo por inanição e outras práticas.
Um medo irracional, assustador e confuso que passa a ditar os atos do indivíduo. Muitas vezes, ao reagir, a pessoa torna-se ansiosa ou extremamente depressiva e fora de controle.
Lidar com sentimentos tão abstratos pode parecer mais fácil se o foco é desviado para pontos mais concretos como a gordura ou o tamanho da cintura. A pessoa pensa que administrou sua insatisfação.
Uma grande mudança na vida de uma adolescente, sem que ela tenha a estrutura necessária para tal, pode ser um exemplo de como tudo começa. Para lidar com a ansiedade e a frustração, sua atenção passa a se voltar a comportamentos relacionados à redução de peso: dietas, prática obsessiva de ginástica ou ainda a purgação.
Pacientes anoréxicos se sentem no controle da vida ao adotarem novas unidades de medidas: a balança, as tabelas de caloria, numeração de roupas e tempo gasto com exercícios físicos. Esses métodos dão um alívio passageiro, ao mesmo tempo em que intensificam a vontade de querer se livrar de tudo o que é ingerido.